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A bolha das faculdades de veterinária no Brasil

Há muito tempo eu vejo diversos veterinários reclamando sobre o número de faculdades de medicina veterinária no país, mas nunca li nada na internet sobre. Por isso resolvi escrever este artigo, justamente para fomentar a discussão sobre o tema.

A verdade é que o Brasil é um dos países com maior número de faculdades de medicina veterinária no mundo, isso se não for o maior. Na última palestra que assisti do CRMV, disseram que existiam 203 faculdades, sendo que essa palestra já foi há algum tempo, portanto, pode-se colocar mais uma meia dúzia nessa contagem. Para vocês terem uma ideia, nos Estados Unidos existem cerca de 30 cursos de graduação. Sete no Reino Unido. Treze na nossa vizinha Argentina. Só no Paraná eu contei umas 16 faculdades de cabeça, mas devem existir muito mais.

Se a gente colocar uma média de 40 alunos por turma (média baixa, por sinal), nós teremos cerca de 8 mil novos profissionais no mercado, todos os anos! É lógico que é excepcional a população ter mais acesso ao ensino superior, e não estou nem questionando a saturação do mercado – que está saturadíssimo, inclusive – mas minha preocupação é com a inerente baixa qualidade desse ensino. O meu medo é que isso acabe virando uma bola de neve, agravando cada vez mais a situação da nossa profissão no país que, convenhamos, já é um tanto quanto caótica.

Como o mercado já não comporta tantos profissionais, inclusive os qualificados, muita gente acaba vendo como única alternativa a docência nestas novas faculdades, virando um círculo vicioso de formação de novos alunos. No final das contas, os únicos que realmente saem ganhando são os donos destas faculdades, que jogam a mensalidade lá em cima, disponibilizando baixa infraestrutura. Afinal, medicina veterinária é o segundo curso de graduação mais rentável para as faculdades, perdendo apenas para medicina. Não é raro eu ver algum leitor do Vet da Deprê reclamando que a sua instituição não possui clínica para atendimento ou laboratórios.

Este é um assunto muito pouco debatido, e é por isso que eu gostaria de propor a discussão dele aqui com vocês. A princípio, eu não enxergo nenhuma solução factível a curto, médio e, para ser bem sincero, longo prazo, além de uma maior atitude por parte do MEC. Mas eu gostaria muito de saber a opinião de vocês! Vocês veem um futuro animador para esta questão em nossa profissão? Será que um dia essa “bolha” das faculdades de medicina veterinária vai estourar? Se é que já não estourou, né…

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Luiz Guilherme Corsi
Criou o Vet da Deprê em 2011, quando ainda estava na faculdade. Hoje é Mestrando em Ciência Animal pela Universidade Estadual de Londrina. Gosta muito de marketing digital, é cachorreiro nato e não dispensa um bom livro. Instagram: @lgcorsi

2 Comments

  1. Com 73 anos de idade, há 11 anos aposentado como pesquisador da Embrapa Gado de Leite e professor Universitário há mais de 30 anos (graduação e pós-graduação), e vendo chegar a hora de encerrar definitivamente a carreira, achei muito interessante e oportuna a abordagem deste tema para comentários e opiniões. Já nos últimos anos de Embrapa sentia que ano após ano diminuía um pouco a qualidade dos estagiários, o que também se refletia nas faculdades com relação aos alunos. Em síntese posso afirmar que se aplicasse hoje as mesmas provas das turmas de anos atrás, o índice de reprovação seria bem expressivo. Gostaria de enfatizar que não vejo este como um problema só da veterinária, abrangendo praticamente todas as profissões. Num artigo publicado na revista do CFMV em 2013 este tema foi abordado e o autor concluiu que na época tínhamos 181 faculdades de veterinária, o que demandaria cerca de 6.000 professores capacitados, mas não tínhamos 2.000. A se lamentar esta situação, porque se continuar esta abertura desenfreada de faculdades, a tendência futura é termos cada vez menos colegas competentes tentando manter ou elevar o patamar de credibilidade da profissão, contra uma parcela cada vez mais significante de profissionais não devidamente preparados para o exercício da profissão atuando no sentido contrário (contribuindo para reduzir esta credibilidade). A realidade atual é que a cada ano aumentam os diplomados não capacitados. Sempre digo para meus jovens alunos: corram sempre atrás de conhecimentos e exijam sempre mais dos professores, pois no meio da mediocridade o sucesso estará garantido para aqueles que estiverem devidamente capacitados e preparados.

  2. Afirmava o competente Dr. Elizeu Alves: o poder de transmissão do bom professor está diretamente relacionado com o poder de aprendizagem e de interesse dos alunos. Com base nessa afirmação vejo na exagerada proliferação de Faculdades (em todas as áreas) problemas nos dois sentidos: não tem como ter um número de professores gabaritados para tantas faculdades, e por outro lado a impressionante quantidade de alunos sem o mínimo de base para acompanhar o curso, somando-se a isto o grande desinteresse por boa parte dos maus alunos, percebendo-se claramente uma enorme inversão de valores, ou seja, o professor tentando exigir dos alunos (frequência e desempenho acadêmico) e muitos alunos pouco exigindo dos professores, a não ser aprovação. Os bons alunos e futuros profissionais competentes não têm porque se preocupar, seu lugar ao sol está garantido, mas os maus alunos que se preparem para dias sombrios, pois o mercado certamente faz uma rigorosa seleção, pois ninguém consegue enganar muitos durante certo tempo. Há muitos anos venho fazendo uma estatística e atualmente posso afirmar que de 40 alunos por semestre tenho em média 4 (10%) excelentes, outros 6 (15%) ótimos e uns 20% (8) regulares para bons. Os restantes 55% poderão até sobressair profissionalmente em outras especialidades, mas sem as mínimas condições de atuar em reprodução de grandes animais (minha disciplina).

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